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Miniaturas de monumentos transformam cotidiano de artesãos em Brasília

Peças artesanais inspiradas em ícones de Brasília garantem renda e resgatam memórias de trabalhadores migrantes

21/04/2026 às 14:22
Por: Redação

A rotina de Agnaldo Noleto, artesão de 56 anos, começa antes do amanhecer. Ele inicia suas atividades diárias às 4h, após acordar uma hora antes, em sua residência localizada em Santo Antônio do Descoberto, Goiás. Com equipamentos de proteção como óculos e máscara, seleciona cuidadosamente materiais como resina, madeira e tinta, que utiliza para criar miniaturas de monumentos de Brasília, cidade situada a mais de cinquenta quilômetros de distância e que entrou de forma marcante em sua vida.

 

Estas pequenas representações concentram características emblemáticas da capital federal, que neste 21 de abril completa 66 anos. Agnaldo dedica-se à confecção, montagem, lixamento e pintura das peças, que chegam a somar cerca de 850 unidades por semana. Os itens são comercializados em feiras pela cidade e se transformam em lembranças para turistas e para os próprios moradores, embora cada modelo miniaturizado carregue, para o artesão, significados de grandes proporções.

 

A inspiração principal de Agnaldo é a Catedral de Brasília, monumento que ele observa e, ao mesmo tempo, replica com as mãos marcadas pela tinta a cada madrugada. Seu primeiro trabalho foi confeccionado em homenagem à escultura Os Candangos, de oito metros de altura, criada por Bruno Giorgi em 1959 e instalada na Praça dos Três Poderes. Com as próprias mãos, Agnaldo reduz o tamanho dessas obras a alguns centímetros, mas mantém vivas as memórias de sua trajetória, da irmã e de outros nordestinos que migraram para a jovem capital.

 

Durante a adolescência, já demonstrava vocação para o artesanato ao fabricar carrinhos de madeira e objetos com argila. Inicialmente, sobreviveu vigiando carros no estacionamento da Catedral de Brasília, aos 14 anos, após deixar o Maranhão e mudar-se para a capital em 1980, acompanhado da irmã. Os pais seguiram vivendo no interior maranhense, onde enfrentavam dificuldades.

 

“Minha família sofria na roça. Eu ajudava eles, mas acho que eu sempre quis mesmo era ser artista.”

 

Agnaldo passou a ganhar a vida, incentivado por guias de turismo, produzindo fotos instantâneas. A atividade como artesão consolidou-se após o contato com a pedra-sabão, material então utilizado até ser proibido pelo amianto em sua composição e substituído pela resina. Aprendeu técnicas de escultura, montagem de peças e passou a abordar clientes com um sorriso:

“uma lembrancinha hoje?”

 

Segundo ele, o comércio de lembranças tem grande relevância em Brasília.

“A lembrancinha é uma força em Brasília inteira. Eu sempre gostei do artesanato. Sempre gostei de cultura. O artesanato é a minha cultura.”

 

Para Agnaldo, a Catedral de Brasília, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, é uma referência de dificuldade e desafio artístico.

“Eles eram artistas. Eu só copio. Mas, mesmo assim, nada é fácil. Todas as peças são complicadas. A Catedral de Brasília é muito difícil. Qualquer pessoa pode fazer, mas nunca na perfeição que se exige.”

 

Ele monta cada item de maneira individual até alcançar o padrão exigido para comercialização, padrão que permitiu criar seis filhos, todos nascidos em Brasília. A jornada é intensa: de segunda a sexta-feira, o trabalho pode se estender até a noite. Nos fins de semana, monta sua banca em frente à Catedral a partir das 8h, permanecendo até as 18h ou enquanto houver fluxo de turistas.

 

Comércio familiar e continuidade do trabalho

 

Nos dias úteis, Agnaldo cede seu ponto de venda à frente da Catedral para outra família de migrantes nordestinos que também comercializa suas miniaturas. Nariane Rocha, maranhense de 44 anos, assumiu a função após a morte do marido, Marcelino, vítima de câncer aos 64 anos, no final do ano anterior. Desde então, conta com a colaboração da nora, Michele Lima, potiguar de 42 anos.

 

Michele destaca seu apreço por Brasília, afirmando sentir segurança e vontade de permanecer na cidade. Ambas residem no Novo Gama, município distante mais de quarenta quilômetros da Catedral, e alimentam o desejo de abrir uma loja fixa, visando proteção contra intempéries, já que, em dias de chuva, precisam rapidamente proteger as mercadorias. Além disso, ao final do expediente, é necessário transportar todos os produtos para o veículo.

 

Os planos das duas também incluem o retorno aos estudos, especialmente com o objetivo de cursar psicologia.

“A gente é comerciante, mas adora conversar e entender as pessoas”,
declara Michele.

 

Diversidade de histórias no artesanato da praça

 

No entorno da praça da Catedral, outras bancas são ocupadas por artesãos de diferentes origens. Alberto Correia, natural de Paranã, Tocantins, aos 57 anos, reside atualmente em Itapoã, na periferia do Distrito Federal. Ele relembra o início da carreira, quando fazia suas peças diretamente no chão, em frente à Catedral.

 

Ao lado dele, Rodrigo Gomes, de 41 anos, natural de Anápolis, Goiás, deixou a profissão de mototaxista, considerada arriscada, para se dedicar à reprodução em miniatura da arquitetura brasiliense. Rodrigo se destaca ao reunir monumentos sobre a base do mapa do Brasil, obra que nomeou de “Mapa Candango”.

 

“Tudo aqui tem jeito de arte. A gente tem que ser criativo para chamar atenção. A cidade é um monumento. A gente pede para olhar para as miniaturas.”

 

Outra personagem é Tânia Bispo, soteropolitana de 58 anos, residente no Gama, que iniciou sua trajetória vendendo água de coco e atualmente comercializa miniaturas em uma banca próxima à de Rodrigo. Seu marido permanece vendendo água de coco do outro lado da praça e, juntos, sustentaram os quatro filhos com a renda das bancas.

 

Tânia, há três décadas vivendo em Brasília, relata sentir-se parte da construção da cidade.

“Já fui diarista e infeliz. Hoje não me imagino em outro lugar. Sou encantada por essa cidade grande.”

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